Nota editorial
Este conteúdo foi reconstruído a partir do acervo histórico do site Juntos no Candomblé, preservando o sentido, o contexto religioso e cultural do texto original, com ajustes editoriais para facilitar a compreensão nos dias atuais e incorporar reflexões trazidas pela própria comunidade ao longo do tempo.
O que é Exu?
Exu é um dos Orixás mais conhecidos — e também um dos mais incompreendidos — dentro das religiões de matriz africana. Grande parte dessa confusão surge da dificuldade em distinguir Exu enquanto Orixá, cultuado no Candomblé, de Exu enquanto entidade espiritual, manifestada nas giras de Umbanda.
No contexto africano e no Candomblé, Exu é um Orixá primordial, ligado à dinâmica da vida, ao movimento, à comunicação e ao início de todas as coisas. Ele não representa o mal, tampouco possui relação com figuras demonizadas criadas fora das tradições africanas.
Exu como Orixá no Candomblé
Exu Orixá é uma força da natureza associada ao movimento, à transformação e à comunicação entre os mundos espiritual e material. É por isso que, tradicionalmente, Exu é o primeiro a ser reverenciado nos rituais, pois sem ele não há circulação de energia, nem comunicação entre os Orixás e os seres humanos.
Na tradição oral africana, conta-se que Exu Yangi participou da criação do mundo, sendo designado por Olodumaré como mensageiro. Ao descer à Terra, Exu teria se tornado o primeiro Orixá a chegar ao plano material, razão pela qual ocupa posição central nos cultos, agrados, oferendas e no xirê.
Entre os diversos nomes atribuídos a Exu conforme a região e a nação, destacam-se:
Eleguá, Elebara, Bara, Akesan (Exu de Ifá), Iangi, Onan (senhor dos caminhos), Exu Tiriri, entre muitos outros.
Cidades africanas como Ketu, Ekiti, Ondo e Inebu são tradicionalmente associadas ao culto de Exu, sendo Ketu apontada, em algumas narrativas, como local onde Exu teria reinado.
O que é Exu na Umbanda
Na Umbanda, o termo Exu é utilizado para designar entidades espirituais, também chamadas de guias ou guardiões, que trabalham na linha da esquerda. Esses Exus não são Orixás, mas espíritos que já passaram por diversas encarnações e atuam auxiliando, orientando e protegendo seus médiuns e consulentes.
Essas entidades se manifestam para:
- orientar por meio de consultas
- alertar sobre caminhos e escolhas
- proteger contra desequilíbrios espirituais
- auxiliar no cumprimento da Lei e da Justiça Divina
A diferença fundamental é clara:
- Exu Orixá é uma força primordial da natureza
- Exu da Umbanda é uma entidade espiritual evoluída
Ambos atuam dentro da Lei Divina, porém em planos e funções diferentes.

Exu Orixá e Exu de Umbanda: diferenças essenciais
No Candomblé, os Exus que não são Orixás são conhecidos como Ekurus ou Ecurus, associados ao culto aos Eguns (ancestrais). Na África, há inclusive cultos específicos voltados exclusivamente para esses espíritos.
Em algumas casas de Candomblé, especialmente na nação Angola, o culto a entidades é tradicional. Em outras, como Ketu e Jeje, isso passou a ocorrer ao longo do tempo devido à influência de praticantes vindos da Umbanda, que já traziam consigo suas entidades espirituais.
Mesmo assim, é importante destacar:
Exu Orixá não se manifesta em giras de Umbanda. O que se manifesta são entidades espirituais que trabalham sob outras correntes energéticas.
Exu faz o bem ou o mal?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes levantadas pela comunidade ao longo dos anos. A resposta, dentro da tradição, é clara: Exu não é o mal.
Exu está ligado à Lei da causa e efeito, à responsabilidade pelas escolhas e às consequências dos caminhos trilhados. Sua atuação não é moralizada em “bem” ou “mal” como na visão cristã, mas sim entendida como equilíbrio, ordem e justiça.
Na Umbanda, as entidades Exus também atuam respeitando a Lei Divina, nunca acima do Anjo da Guarda ou dos princípios espirituais maiores.
Arquétipo de Exu
O arquétipo de Exu está associado a:
- inteligência e astúcia
- comunicação clara
- capacidade de adaptação
- questionamento e discernimento
Pessoas ligadas a essa energia costumam apresentar rapidez de raciocínio, habilidade para lidar com mudanças e facilidade para transitar entre diferentes situações da vida.
Exus conhecidos na Umbanda
Entre os Exus mais conhecidos na Umbanda, destacam-se:
Exu Tranca-Ruas, Exu Caveira, Exu Tiriri, Marabô, Exu Veludo, Exu Meia-Noite, Zé Pelintra, Exu Mirim, além das Pombas Giras, como Maria Padilha, Maria Mulambo e Maria Navalha.
Cada entidade possui sua própria história, atuação e forma de trabalho espiritual.
Considerações finais
Compreender Exu é essencial para desfazer preconceitos e compreender corretamente as religiões de matriz africana. Exu não é o mal — Exu é movimento, comunicação e equilíbrio. Sem Exu, não há caminho, não há troca e não há ordem entre os mundos.
Leituras relacionadas
- O que é Orixá?
- Omolu / Obaluaiê
- Fundamentos do Candomblé
- Exu faz o bem ou o mal?